Aniversário

Nasci na Casa de Saúde São José, no Humaitá, no dia de todos os santos, na véspera do dia de finados. Do lado da Lagoa Rodrigo de Freitas e aos pés do Morro do Corcovado.

Cresci entre Madureira, Tijuca e Andaraí. Bairros da minha infância, adolescência e início da vida adulta. Para mim mais do que acontecimentos casuais os locais e as datas importantes na minha vida determinaram em muito meus caminhos, meu aprendizado e assim, também o meu ser.

É o que algumas pessoas chamam de sincronicidade. Só que disto prefiro não falar agora.

Tenho medo de morrer e tenho medo de deixar de ser.

Digo isto porque os aniversários sempre me lembram que vivemos em um intervalo entre dois eventos: nascer e morrer. E estes eventos são a materia prima que se entrelaçam e constituem o fio da vida. Nascemos e morremos a todo instante ou não estamos vivos.

Já conheci pessoas que me disseram não terem o medo de morrer mas que viviam com medo da dor, do vazio e do desconhecido. Hoje tenho a certeza de que só não tem medo de deixar esta vida as pessoas que estão doentes, os que escolhem por não-ser e os iluminados.

Os iluminados, os santos provavelmente já transcenderam tudo isto. No dia de todos os santos celebram os santos conhecidos e todos os outros desconhecidos. Também nós temos este potencial para transcender as ilusões e a fragilidade da vida.

E o fio da vida é muito frágil! Me recordo das vezes em que "quase morri". Situações parecidas com outras em que vejo ou sei de pessoas que morrem mesmo. E todas as vezes me ponho a pensar como poderia ter sido minha vez. Mas não foi.

Até quando?

Não me deram o poder de conhecer o futuro nem o poder de reter a vida. Na verdade não me deram poder quase nenhum. Sou um ser sem poderes. Podado. Limitado. Aliás, falta-me até o poder de conhecer meus poderes e limitações.

Limitadíssimo!

Então com todas as minhas limitações, fraquezas, ignorâncias e tudo que raramente aguento ver nos outros e menos ainda em mim, confesso que errei muito! Também aprendi muito mas não adianta muito não. Confesso que repito erros e escolhas ruins que já deveria evitar.

Pior, algumas vezes erro com a consciência do erro. Assisto de camarote meu ser dar os passos em direção de escolhas que repetem o que já me prometera evitar. Naturalmente com justificativas tolas e com o orgulho e arrogância dos que desafiam seus limites.

Então também já me arrependi várias vezes. Aliás já conheci pessoas que não se arrependem e pessoas que não erram. Com o passar do tempo, entendi que estas pessoas erram como todos e se arrependeriam se fossem capazes de ver com clareza.

Ver é mais do que um sentido: é uma escolha.

Ver de verdade pode ser doloroso e nem todos querem correr este risco. É duro mas é assim mesmo. Algumas vezes sofremos e nos preocupamos mas não te iluda: estas pessoas não sofrem. Foram eles que inventaram o ditado: o que os olhos não vêem o coração não sente.

Cuida de ti e da tua gente.

E minha gente são os que escolhem ver e não se furtam de sentir, nem de sofrer o que tem de ser sofrido. Eu gosto mais desta gente que tem medo de morrer porque gosta de viver, porque nasce e morre todo dia, porque erra e se arrepende porque vê no que errou.

Gente que se pergunta todo dia o que é o certo e o que é o errado. Porque o certo e o errado nunca ficam no mesmo lugar. E mesmo que junte um monte de gente sábia e escreva na pedra o que é certo e o que é errado as pessoas mudam, as coisas mudam e um dia está tudo invertido.

Gente que gosta do conforto e das coisas boas deste mundo mas que sente o mundo invizível em que vivemos mergulhados. Gente que sabe que toda segurança é ilusão e que tudo está por um triz e que o mal existe e que viver não é mole. Gente que não veio a passeio...

Ver e sentir a vida que flui: nascimentos e mortes.

Oxalá possa seguir morrendo e nascendo todo dia, sendo todo dia e sempre perto das pessoas cujos olhos nem sempre vêem mas cujo coração advinha e sente. Seja assim até o dia de perder a consciência de ser que conheço hoje. Quem sabe se outra consciência serei?

Hoje faz uma semana que celebrei meu aniversário, a presença nesta vida, a escolha e as dificuldades em ser, os arrependimentos e tudo que vivi. Celebrei os encontros com tantas pessoas importantes para mim que ficaram ou que se foram.

Celebrei também a esperança do que pode ser vivido, do porvir, a esperança que vêm nas tramas misteriosas destes nascimentos e mortes. Celebração de mistérios.

Dia de todos os santos que antecede o dia de finados: feriado e pessoas queridas longe.

Não houve festa mas celebrações tranquilas com pessoas queridas que encontrei e saudades das pessoas queridas que estavam longe. Abraços, beijos, sorrisos e palavras calorosas ditas ou cantadas. Emoções fortes, lágrimas de alegria e sorrisos de satisfação.

Também ganhei cumprimentos formais, alguns secos e alguns meio duros. Cada pessoa dá o que pode e quer. A gente também aprende sobre as pessoas assim. Agradeci e compreendi que nem todos me amam do mesmo modo e alguns nem amam. Isto me fez bem também.

Sigo, nesta marcha pelo fio da vida neste mundo
Até que a materia do nascer e morrer se rompa.

Uma semana para entender tudo isto: nada mal...